domingo, 30 de novembro de 2008


"Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, rejeito os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem.
(...)

Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.

De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes... Com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...

Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias..."

(Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer")

domingo, 2 de novembro de 2008



Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou odiá-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas o que pode perfeitamente prometer são aquelas ações que, na verdade, são geralmente as consequências do amor, do ódio, da fidelidade, mas que também podem emanar de outras razões, pois a uma ação conduzem diversos caminhos e motivos. A promessa de amar sempre alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, manifestar-te-ei as ações do amor; se eu já não te amar, pois, não obstante, receberás para sempre de mim as mesmas ações, ainda que por outros motivos. De modo que a aparência de que o amor estaria inalterado e continuaria sendo o mesmo permanece na cabeça das outras pessoas. Promete-se, por conseguinte, a persistência da aparência do amor, quando, sem ilusão, se promete a alguém amor perpétuo.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Se


Se, ao final desta existência,
alguma ansiedade me restar
e conseguir me perturbar;
se eu me debater aflito
no conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
para ocultar-me,
para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
pelo que não consegui
possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
do pouco que é necessário
e persistir indiferente ao grande pranto do mundo...

Se algum ressentimento,
algum ferimento
impedir-me do imenso alívio
que é o irrestritamente perdoar,
e, mais ainda,
se ainda não souber sinceramente orar
por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
denunciar o cisco no olho do outro
sem conseguir vencer a treva e a trave
em meu próprio...

Se seguir protestando
reclamando, contestando,
exigindo que o mundo mude
sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
em queixas, ais, e lamúrias,
persistir a buscar consolo, conforto, simpatia
para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
para que possa embeber-me de silêncio,
sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
grosseiros e frágeis
que o mundo empresta,
e eu neles ainda acredito...
apagar

Se, imprudente e cegamente,
continuar desejando
adquirir,
multiplicar,
e reter
valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
na ânsia de ser feliz...

Se, ainda presa do grande embuste,
insistir e persistir iludido
com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
continuar
sem escutar, sem entender, sem atender,
sem realizar o Cristo, que,
dentro de mim,
Eu sou,
terei me perdido na multidão abortada
dos perdulários dos divinos talentos,
os talentos que a Vida
a todos confia,
e serei um fraco a mais,
um traidor da própria vida,
da Vida que investe em mim,
que de mim espera
e que se vê frustrada
diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
terei parasitado a vida
e inutilmente ocupado
o tempo
e o espaço
de Deus.
terei meramente sido vencido
pelo fim,
sem ter atingido a Meta.

Extraído do livro Canção Universal in http://www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=525&secao=3032

domingo, 12 de outubro de 2008

segunda-feira, 6 de outubro de 2008



...A gente não percebe o amor
Que se perde aos poucos
Sem virar carinho
Guardar lá dentro
Amor não impede
Que ele empedre
Mesmo crendo-se infinito
Tornar o amor real
É expulsá-lo de você
Prá que ele possa ser
De alguém...

Nando Reis

A DIFERENÇA ENTRE CONFIAR E SER INGÊNUO


A diferença entre confiar e ser ingênuo é vasta,
mesmo assim a linha divisória é muito sutil.
Ser ingênuo significa ser ignorante.
Confiar é o ato mais inteligente da existência.

E os sintomas a serem lembrados são:
ambos serão enganados,
ambos serão trapaceados,
mas a pessoa que é ingênua
se sentirá enganada, trapaceada,
ficará com raiva,
começará a não confiar nas pessoas.
Sua ingenuidade, mais cedo ou mais tarde,
se torna desconfiança.


E a pessoa que confia também será
enganada, trapaceada,
mas não vai se sentir lesada.
Ela simplesmente sentirá compaixão
por aqueles que a enganaram,
que a trapacearam,
e sua confiança não será perdida.
Sua confiança jamais
se transformará em desconfiança
para com a humanidade.
Esses são os sintomas.

No princípio, ambos parecem iguais.
Mas, no final, a qualidade da ingenuidade
se transforma em desconfiança,
e a qualidade da confiança
continua a se tornar mais confiança,
mais compaixão,
mais compreensão das fraquezas humanas,
da fragilidade humana.

A confiança é tão valiosa
que a pessoa está disposta a perder tudo,
menos a confiança.

OSHO

domingo, 5 de outubro de 2008


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.

Por isso te amo quando não te amo e

por isso te amo quando te amo

Pablo Neruda

Frases